Travessias
Ensaio

Try out

PM
Pyettra Martins·25 out 2026·5 min de leitura

A caneca que eu levei por meio mundo

Ou sobre as pequenas coisas que nos ajudam a continuar sendo nós quando quase tudo muda

A coisa mais estranha sobre começar de novo é a quantidade de sentimentos aparentemente contraditórios que, de alguma forma, conseguem aparecer juntos.

Você pode estar genuinamente feliz e ainda assim sentir vontade de chorar. Pode ter escolhido ir embora e sentir luto pelo que deixou. Pode estar morrendo de medo e, ao mesmo tempo, não conseguir pensar em outra coisa além de tudo que quer conhecer.

Talvez seja justamente isso que torne algumas mudanças tão difíceis de explicar para quem pergunta: "mas você está feliz?"

Estou.

E também estou com medo. E com saudade. E curiosa. E empolgada. E às vezes um pouco perdida.

Uma coisa não necessariamente resolve a outra.

Eu já passei por algumas mudanças ao longo da vida. De cidade, de estado, de curso, de trabalho. Algumas exigiram caixas de papelão; outras aconteceram sem que eu precisasse sair do mesmo endereço. Fui adolescente e virei adulta, estudante e depois trabalhadora, solteira, namorando e solteira de novo.

Mas tem uma mudança que sempre volta à minha cabeça quando penso nas coisas que escolhemos carregar de uma vida para outra.

Quando saí do Mato Grosso do Sul para fazer faculdade em Santa Catarina, levei todos os meus livros.

Todos.

Anos depois, quando me mudei de Santa Catarina para São Paulo, fiz questão de fazer exatamente a mesma coisa. Só que dessa vez eu estava sozinha, fazendo uma mudança inteira em um ônibus interestadual, com várias caixas, e aparentemente achei perfeitamente razoável ter mais caixas do que deveria só porque eu queria levar os meus livros comigo.

Não alguns favoritos. Não os que eu pretendia ler em breve.

Os livros.

Uma decisão que diz muito sobre a minha relação com literatura e muito pouco sobre a minha capacidade de fazer escolhas logísticas.

Mas eles foram.

E foi carregando aquelas caixas para São Paulo que percebi uma coisa bastante óbvia: em todas as minhas mudanças, meus livros tinham ido comigo. Mesmo quando levá-los era pouco prático. Mesmo quando ocupavam um espaço que eu definitivamente não tinha sobrando.

Tinha alguma coisa em chegar a um quarto novo, abrir aquelas caixas e encontrar os mesmos livros de sempre.

Era concreto.

Era meu.

Não "meu" só porque eu tinha comprado. Meu porque eu me reconhecia ali. Porque aqueles livros já tinham estado comigo em outros quartos, outras cidades e outras versões da minha vida. E porque eu podia recorrer a eles a qualquer hora do dia — sem me preocupar com fuso horário, sem depender da disponibilidade de ninguém, sem precisar explicar por que estava com saudade ou por que aquele dia tinha sido difícil.

Eles simplesmente estavam ali.

Eu não sabia na época, mas isso tem nome. Objetos biográficos — um nome bem mais sofisticado do que uma garota carregando caixas de livros em um ônibus interestadual, mas a ideia é bonita: alguns objetos vão sendo incorporados à nossa história de um jeito que seu valor já não cabe só na função que desempenham. Eles acompanham experiências, pessoas, lugares, fases da vida. E viram, sem que a gente perceba, suporte de memória e de pertencimento.

Tem uma frase que li por aí e não saiu mais da minha cabeça: as coisas que envelhecem conosco nos dão a pacífica sensação de continuidade.

Continuidade. Essa é a palavra.

Não porque os livros mantivessem minha vida igual. Claramente não mantinham. Mas porque, quando tanta coisa ao redor mudava, eles eram uma das poucas coisas que já tinham uma história comigo. Uma história que eu não precisava recontar, provar ou reconstruir do zero — ela já existia, guardada ali, nas dobras das páginas e nos grifos de outra versão minha.

O problema é que, conforme minhas mudanças foram ficando geograficamente mais ambiciosas, levar uma biblioteca particular comigo começou a ficar um pouco mais complicado. Aparentemente eu fiquei mais razoável. Ou as companhias aéreas só estabeleceram consequências financeiras para as minhas decisões e isso funcionou melhor.

Para a Espanha, levei dois livros. Para a China, dois também. E uma caneca.

Uma caneca verde, com a alça amarela, que eu fiz questão de levar comigo.

E aqui eu gostaria de dizer que existia uma grande reflexão psicológica por trás dessa decisão. Não existia. Eu só queria levar a minha caneca. O significado veio depois. Porque, objetivamente, era um cacareco. Ela não tornaria a China menos distante. Não resolveria o fuso horário. Não faria com que eu entendesse mandarim por osmose enquanto tomava café — infelizmente, testei e não funciona.

Mas eu queria aquela caneca comigo. E ela ocupou uma vaga bastante concorrida nos 23 quilos da mala enquanto coisas provavelmente mais úteis ficaram de fora.

Prioridades.

Quando cheguei à China, comecei a entender um pouco melhor aquela escolha.

Nos dois primeiros dias eu só sabia chorar. E essa frase parece muito mais triste do que a experiência realmente era, porque o problema é que eu também estava absurdamente feliz. Eu queria conhecer tudo. Sair. Andar. Experimentar comida. Olhar as ruas. Entender como as coisas funcionavam. Tinha acabado de chegar do outro lado do mundo e uma parte de mim estava completamente embasbacada com o fato de que eu realmente tinha feito aquilo.

A outra chorava enquanto se vestia. Às vezes enquanto comia.

Era uma divisão de tarefas bastante eficiente.

Tudo era novo ao mesmo tempo: língua, costumes, tecnologia, fuso horário, clima, comida, formas de me locomover, maneiras de me comunicar. E não era só o novo que me cansava. Era o fato de que quase tudo exigia atenção. Coisas que antes eu fazia sem pensar voltavam a precisar ser pensadas.

E, no meio de toda aquela novidade que eu queria desesperadamente explorar, às vezes eu só queria fazer alguma coisa que já soubesse fazer.

No meio de um quarto que ainda não parecia meu, em uma cidade que definitivamente ainda não parecia minha, estava aquela caneca ridiculamente familiar.

E acho que "familiar" é a palavra importante aqui. Porque, para qualquer pessoa sensata olhando de fora, era uma caneca. O problema — e o ponto inteiro deste texto — é que eu não estava olhando para ela de fora.

Fui atrás de entender melhor essa história de objeto e identidade, e fez sentido pra mim: um objeto pode carregar um significado que vai além do que ele é fisicamente ou do que foi feito para ser, para fazer. Esse significado se atrela à nossa história, a pessoas, a algum momento específico — como aquela música que você ouviu logo depois de um término, ou um livro que você leu quando estava se sentindo perdida e parece que, de alguma forma, algumas das suas questões foram respondidas, ou pelo menos ganharam um olhar novo. Enfim, tudo isso vai se juntando como numa manta de retalhos, e vai moldando como a gente pensa sobre si mesmo.

Tem uma distinção que gosto particularmente: o significado público e o significado privado das coisas.

O significado público é aquele mais ou menos compartilhado socialmente. Uma caneca é uma caneca. Serve para colocar café, chá, água — ou para abandonar uma quantidade questionável delas na pia e prometer que vai lavar depois.

Já o significado privado é construído pelas experiências que tivemos com aquele objeto. Pode ser completamente particular, conhecido apenas por quem o possui. E aí uma caneca deixa de ser só uma caneca. Um livro deixa de ser só um livro. Uma pelúcia pode ser objetivamente meio feia e, ainda assim, você considera um crime contra a humanidade alguém sugerir que talvez esteja na hora de jogá-la fora.

Não é sobre o objeto em si. É sobre tudo que foi se acumulando nele — como um sedimento silencioso que ninguém vê de fora, mas que dá peso e cor à coisa.

Tem até quem diga que os objetos ajudam a montar uma narrativa mais coerente da própria vida — como se fossem marcadores de página nos acontecimentos que importaram. Não no sentido meio místico de que eles guardam literalmente nossas versões anteriores lá dentro — minha caneca continua sendo só uma caneca de cerâmica.

Quando chego a um lugar novo, faço algo parecido com o próprio espaço: tento construir um cantinho minimamente reconhecível. E "construir" aqui é uma palavra generosa. Na prática, significa arrumar o quarto, colocar meus cacarecos na mesa de cabeceira, acender uma vela, deixar as coisas organizadas de um jeito que faça sentido para mim.

Não precisa ficar bonito.

Precisa começar a parecer meu.

Na China, isso ficou especialmente evidente. Do lado de fora do quarto, eu estava tentando entender uma cidade nova, outra língua, códigos sociais que ainda não conhecia, aplicativos que eu não sabia usar e uma quantidade constrangedora de informações que aparentemente todo mundo tinha recebido em algum manual menos eu.

No quarto, eu não precisava descobrir nada por alguns minutos. Não porque quisesse fazer a vida nova parecer com a antiga — eu queria viver aquela vida nova. Só precisava que, em algum pedacinho dela, eu ainda conseguisse me reconhecer.

E existe um cansaço muito específico nas grandes mudanças: é cansativo quando o óbvio deixa de ser óbvio.

A gente não decide tudo do zero todos os dias. Eu não acordo e avalio cuidadosamente qual é a melhor sequência possível para escovar os dentes, fazer café e sair de casa. Não elaboro uma análise comparativa de rotas toda vez que vou ao mercado. Não preciso procurar em qual armário está o copo na minha própria cozinha.

Ainda bem. Eu já tenho decisões questionáveis o suficiente para tomar conscientemente.

Uma parte da nossa rotina vai se tornando automática conforme repetimos comportamentos em contextos relativamente estáveis. Horários, lugares, caminhos, pessoas e outras características do ambiente podem funcionar como pistas para aquilo que fazemos. É uma economia de esforço tão cotidiana que a gente quase não percebe que ela existe.

Até ela falhar.

Existe até um nome pra isso, que descobri pesquisando: descontinuidade do hábito. A ideia, resumida, é que quando o contexto estável que sustentava um comportamento é sacudido por uma mudança, o automático dele enfraquece — mesmo que o comportamento em si continue possível. Mudança de casa é literalmente um dos exemplos que aparecem nesses estudos.

E antes que eu transforme minha chegada à China em evidência científica: calma. Esses estudos investigam comportamentos e contextos específicos, então isso não explica tudo o que eu senti por lá. Mas me oferece uma lente interessante para pensar uma parte daquela experiência: o contexto participa muito mais daquilo que fazemos automaticamente do que percebemos enquanto ele continua estável.

E talvez por isso uma mudança grande consiga tornar visíveis coisas que antes eram praticamente invisíveis.

O caminho que você fazia sem abrir o mapa. O horário em que precisava sair sem precisar calcular. O corredor onde estava o café no mercado. O aplicativo que você abria para pagar. As pequenas regras sociais que ninguém nunca precisou te explicar porque você simplesmente cresceu aprendendo.

Quando o contexto muda, algumas dessas respostas deixam de estar prontas. Nenhuma delas, sozinha, parece grande coisa. O problema é que às oito da manhã você já resolveu quinze delas e ainda nem tomou café.

Na China, eu sentia isso o tempo inteiro. Eu queria olhar a cidade, mas precisava descobrir como chegar. Queria experimentar comida, mas precisava descobrir como pedir. Queria conversar, mas conversar exigia pensar. Queria dormir, mas meu corpo aparentemente tinha decidido manter relações diplomáticas exclusivas com o fuso horário brasileiro.

Era maravilhoso. E era exaustivo. As duas coisas continuavam sendo verdade.

E foi curioso perceber o contraste. Enquanto tantas pequenas coisas tinham saído do automático, outras pequenas coisas pareciam ganhar um tamanho desproporcional. O café da manhã do jeito que você gosta. A mesma playlist de sempre. A série conforto que você já assistiu tantas vezes que, a essa altura, os personagens provavelmente deveriam começar a pagar aluguel. O banho prêmio. Os livros na cabeceira. A caneca.

São coisas completamente diferentes, mas que têm alguma coisa em comum: você já as conhece. E conhecer, quando tudo mais é pergunta, vira um tipo de descanso.

Com o tempo, comecei a escolher algumas dessas pequenas continuidades de propósito. Não necessariamente levar uma caneca para todo país que visito — algum limite logístico eu precisava desenvolver. Fazer meu café do jeito que gosto. Arrumar o quarto. Ligar para alguém. Colocar a mesma playlist. Assistir à série que eu já conheço.

E não quero transformar isso em uma lista de hábitos que precisam ser cumpridos corretamente. Deus me livre transformar até o banho prêmio em meta de desempenho.

O café que antes simplesmente cabia na manhã agora precisa caber em uma manhã completamente diferente. A ligação que acontecia no fim do expediente talvez precise sobreviver a um fuso horário. A série depois do jantar agora disputa espaço com uma rotina que ainda nem terminou de existir.

E é muito fácil deixar tudo isso para depois. O café pode esperar. A ligação fica para amanhã. O banho pode ser mais rápido. A série fica para quando sobrar tempo.

Só que eu não queria construir uma vida nova composta exclusivamente por coisas novas. Não porque eu quisesse fingir que nada havia mudado. Justamente o contrário: eu queria conhecer o lugar novo, experimentar coisas novas, deixar aquela experiência também me transformar. Mas não acho mais que, para fazer isso, eu precise chegar vazia.

Mudar sem se perder não significa continuar sendo a mesma pessoa. Na verdade, espero sinceramente não ser. Seria um desperdício atravessar cidades, estados, países, relações, trabalhos, términos, começos e todos esses desvãos da vida para sair exatamente igual do outro lado.

Mas também não acho que toda mudança precise começar com uma folha em branco.

A gente chega carregando história. Às vezes metaforicamente. No meu caso, aparentemente, também em caixas extremamente pesadas e bagagens criteriosamente mal aproveitadas.

Primeiro foram os livros. Depois, uma caneca. Hoje acho que entendo um pouco melhor por quê.

Não era porque eu precisava que os lugares novos parecessem com casa. Eu queria que fossem diferentes. Era justamente por isso que eu estava indo. Talvez eu só precisasse que, no meio de tanta diferença, existisse alguma coisa que não precisasse ser descoberta de novo. Alguma coisa que já tivesse história comigo. Alguma coisa que eu pudesse colocar em cima de uma mesa desconhecida e reconhecer.

As pequenas coisas não ficam tão importantes quando tudo muda porque consigam nos proteger da mudança. Elas não conseguem. E talvez nem devam. Elas ficam importantes porque, enquanto tanta coisa ao redor ainda está encontrando um lugar, podem nos lembrar que nós não começamos do zero. Existe uma vida inteira que chegou ali com a gente. Nos hábitos. Nas memórias. Nas músicas. Nos livros.

Talvez mudar sem se perder tenha menos a ver com saber exatamente quem você vai ser depois e mais com conseguir reconhecer alguma coisa sua enquanto descobre.

E foi por isso, eu acho, que levei uma caneca por meio mundo: para ter alguma coisa minha e concreta enquanto todo o resto ainda eram perguntas.

Referências e leituras

Thomas, G. O., Poortinga, W., & Sautkina, E. (2016). Habit discontinuity, self-activation, and the diminishing influence of context change: Evidence from the UK Understanding Society Survey. PLOS ONE, 11(4), e0153490.

Verplanken, B., Walker, I., Davis, A., & Jurasek, M. (2008). Context change and travel mode choice: Combining the habit discontinuity and self-activation hypotheses. Journal of Environmental Psychology, 28, 121–127.

Wheeler, S. C., & Bechler, C. J. (2020). Objects and self-identity. Current Opinion in Psychology.

Silva Junior, N. B. (2025). Objetos biográficos e memória social: narrativas e cultura material no Museu das Coisas Banais. Revista Eletrônica Trilhas da História, 14(30), 333–357.

“Ou sobre as pequenas coisas que nos ajudam a continuar sendo nós quando quase tudo muda”

Comentários

Em breve. Este espaço ainda não está conectado a um backend -- o que você escrever aqui não é salvo.